Faz hoje cerca de uma semana que conheci uma rapariga. Cheguei a uma esplanada e ela estava lá com amigos meus. Não sei porquê mas fui logo com a cara dela. Era daquelas pessoas que se notava que se punha logo à vontade no primeiro sorriso que lhe lançavam. Mas reparei uma amargura no olhar. Notava uma tensão no sorriso que não queria rasgar por completo. Roía a unhas e de seguida suspirava. Pegava no telemóvel e voltava a pousar. Voltou a pegar nele, pousou. Suspirou.
Quando a abordei mostrou ser muito simpática, sorridente. Passaram-se cerca de duas horas e só ficamos eu, ela e a nossa amiga em comum.
"-Então Francisca, está tudo bem? Hoje estás mais calada que o costume. Sim, porque ela fala muito, mas no seu estado normal ainda consegue ser mais faladora e mais maluca." - dizia-me a nossa amiga.
Bastou uma pergunta. Uma pergunta para ela se desfazer em lágrimas. A Ana, a nossa amiga, saltou logo duas cadeiras de modo a poder ampará-la. Eu permaneci no mesmo sítio sem saber o que dizer, sem saber se devia estar ali. "É melhor deixa-las a sós", pensei eu. Mas quando o pronunciei a Francisca foi a primeira dizer que podia ficar. Fiquei.
E então ela disse:
"-Não vos queria chatear, mas sinceramente, preciso de chorar e preciso de me sentir ouvida. Nestes últimos dias não existe ninguém a quem eu consiga recorrer. Ninguém que eu consiga ligar a dizer: não sei o que se passa comigo. Não existe ninguém que eu ache que me compreenda. Não sei se a Ana já comentou contigo - disse-me ela - mas namoro há cerca de dois anos, falta pouco menos de um mês. Mantemos uma relação à distância. Quando tudo começou era a primeira a não acreditar que ia resultar, mas a verdade é que resultou. Não te consigo explicar o quanto o consigo amar neste momento. Eu amo a toda a hora. Não sei se já estiveste apaixonada alguma vez, mas acredita, é a melhor coisa que te pode acontecer." Suspirou e limpou algumas lágrimas que lhe corriam no rosto. "Acordar e pensares naquela pessoa. Adormeceres e pensares em quem? Nele. Sou louca por ele. Louca. Amo tudo. Posso dizer-te que é bom em tudo, não desaponta em nada. É o meu melhor amigo e a pessoa mais honesta que conheço." Agora sim, chorou. E muito. " O problema é que ao amares demais, ganhas um medo de perder essa pessoa gigante. Mais do que perder outra qualquer pessoa. Eu, por exemplo, tenho muito medo da morte. Mas acredita, tenho ainda mais medo de perder o Rui. Sim, chama-se Rui. Rui Aurélio." Riu. "E depois tornaste-te ciumenta. Por muito que gostes das amigas dele, por muito que as aches simpáticas, vais sempre vê-las como um "perigo" talvez. Então se achares que são melhores que tu em alguma coisa.. fazes filmes a toda a hora. Começas a ter medo das festas em que não estás. Nunca sei se nesse festa ele não se cruza com alguém e rola um clima e metade da "magia" que eu possuía se perde, assim, num olhar." Ela chorou, e apertou a mão da Ana com tanta força. "Ele vai para a faculdade este ano e eu só penso nas raparigas que ele vai conhecer, naquela mais bonita que se vai interessar nele. Sim, porque eu não te disse, mas o meu namorado é de tirar o folgo, o meu moreno. Vês? Lá estou eu a chamá-lo de meu. Até quando será? Espero pelo dia em que ele me mande uma mensagem a dizer: "Kika, sinto muito mas estou apaixonado por outra pessoa." E ela chorou novamente. "E tudo, tudo aquilo que vivi, que me fez feliz e que me completa, acabará ali.. num segundo. Eu não sei, mas vai-me custar tanto. Sabes, ele pode ser o meu namorado, mas tornou-se o meu melhor amigo. Quando acontece alguma coisa, eu só penso nele para desabafar, para chorar. Quando o abraço, tudo vale a pena, tudo. Sentir o corpo dele no meu, as minhas mãos no peito dele, o calor dele. Como se nada me pudesse destruir naquele momento." Ela sorriu e deu uma gargalhada bem leve. "Talvez esteja mal por isso mesmo. Por ter criado uma dependência. Por achar que neste momento é impossível ele amar-me do meu jeito, da mesma maneira. E então eu choro. Ninguém sabe, mas choro todas as noites. Só de pensar naquele dia. E pronto, basicamente estou a viver o amor da minha vida."
Perante tudo aquilo fiquei boquiaberta e só fui capaz de dizer: "Obrigada por me contares tudo isto. Não desistas de alguém que amas tanto." E chorei. Eu nunca amei assim.
Perante tudo aquilo fiquei boquiaberta e só fui capaz de dizer: "Obrigada por me contares tudo isto. Não desistas de alguém que amas tanto." E chorei. Eu nunca amei assim.
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